terça-feira, dezembro 27, 2005

Bons Tempos

Sou que nem criança
Ando descalça
Pulo igual pipoca
Sou bem moleca
Uns dizem que sou sapeca
Outros nem dizem
Pois não os deixo falar
Brinco pelas ruas
Boneca é uma frescura,
Mas a bola anda comigo!
Sei soltar pipa,
Sou quase um menino
Mas por erro do destino
Após as brincadeiras de menino
Eu sapeca, moleca
Resolvi me apaixonar.
Perdi a infância querida
E no lugar colocaram a solidão
Triste amiga
Que nem me faz companhia
E há muito vem me acompanhar...
Adorava os tempos de criança
Que dor de barriga era festa
E machucado na testa
Era motivo de se orgulhar.
Agora tenho salto alto e postura a colocar.
Essa vida é uma loucura
Que para eu, criança eterna
É difícil de trilhar
Queria que os meninos
Fossem sempre inimigos
Para um dia não nos encantar
É, essa vida de adulto não é fácil
Nos é muito cobrado sem nada nos dar.
Responsabilidade não é presente
É coisa chata
Que tira o brilho dos olhos da gente
Que diz que a infância é passageira...
E que não podemos para ela retornar



Cíntia Miguel

terça-feira, dezembro 06, 2005

Rifa-se um coração

Um coração idealista
Um coração como poucos
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque
Que insiste em pregar peças no seu usuário.

Rifa-se um coração
Que, na realidade, está pouco usado
Meio calejado, meio machucado
E que teima em alimentar sonhos e cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente
Que nunca desiste
Um leviano
E precipitado coração
Que acha que Tim Maia estava certo quando escreveu:
"Não quero dinheiro, quero amor sincero, isso é que eu espero!"
Um idealista
Um verdadeiro sonhador.

Rifa-se um coração
Que nunca aprende, que não endurece
E mantém sempre viva a esperança de ser feliz
Sendo simples e natural.
Um coração insensato
Que comanda o racional
Sendo louco o suficiente
Para se apaixonar.
Um furioso suicida
Que vive procurando
Relações e emoções verdadeiras.

Rifa-se um coração
Que insiste em cometer
Sempre os mesmos erros.
Esse coração
Que erra, que briga, se expõe
Perde o juízo por completo
Em nome de causas e paixões. Sai do sério e, às vezes,
Revê suas posições
Arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido
Tantas vezes provocado
Tantas vezes impulsivo
Um coração para ser alugado
Ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes. Um coração abastado
Indicado apenas para quem quer viver intensamente.
E, contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida
Defendendo-se das emoções.

Rifa-se um coração
Tão inocente
Que se mostra
Sem armaduras
E deixa louco
O seu usuário.
Um coração que, quando parar de bater, ouvirá seu usuário dizer:
"O senhor pode conferir, eu fiz tudo certo, só errei quando coloquei sentimento,
Só fiz bobagens e me dei mal quando ouvi este louco coração de criança,
Que insiste em não endurecer se recusa a envelhecer."

Rifa-se um coração
Ou até mesmo troca-se por outro que tenha um pouco mais de juízo,
Um órgão fiel ao seu usuário
Um "amigo do peito" que não maltrate tanto o ser que o abriga
Um coração que não seja tão inconseqüente.

Rifa-se um coração
Cego, surdo, mudo
Mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda não foi adotado.
Provavelmente, por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais
Por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano,
Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado,
Um modelo cheio de defeitos que, mesmo estando fora do mercado, faz questão de não se modernizar.
Uma vez por outra constrange o corpo que domina.
Um velho coração que convence seu usuário a publicar seus segredos,
A ter a petulância de se aventurar como poeta.

Autoria de Clarice Lispector


Quando eu crescer, quero escrever assim!

Titinha